segunda-feira, 15 de março de 2010

Nasci em Angola, no ano de 1963. Sou fruto de uma geração extremamente condicionada a um regime ditatorial que criou uma complexa mentalidade de dever, obrigação, resignação que ainda agora, passados mais de 35 anos do 25 de Abril, persiste em muitos lados como uma pesada herança cultural.
Em minha casa não se falava dos problemas. Em minha casa pouco se falava. Os "outros" não entravam na minha casa, apreendi desde que me conheço que os outros são uma ameaça. Por isso arranja-se sempre defeitos neles, nunca nos poderão atingir...Surgiu o célebre humor de família de que fazemos brado como se fosse a única coisa a transmitir aos outros, mas isso só nos têm trazido dissabores.
Porque muitas vezes o sarcasmo é diferente do humor e as outras pessoas não gostam. E quando o humor é dito na defensiva deixa de ser humor e passa a ser arma de arremesso. E acontecia que as pessoas se afastavam porque nimguem atura isso muito tempo e ficavamos todos muito espantados porquê...
Apercebo-me agora quando o meu conselheiro falava de onde aprendi a táctica de apanhar o ponto fraco dos outros e de usá~lo quando necessário, de onde veio.
Nada disto era feito por maldade. Uma das caracteristicas humana tão bem aproveitadas naqueles tempos era a racionalização. Arranjava-se racionalizações para tudo. Para o sacrifício, para o isolamento, para a tristeza, para o silêncio. Nem que seja porque era a vontade de Deus!
Assim também se arranjavam racionalizações para mantermos os outros há distância, desde a diferença de classes sociais, mas principalmente (porque por aí, na diferença de classes, existia um terreno não conquistado por nós a nível económico) , pela cultura, pela maneira como falavam, como se comportavam, até pelo facto de comerem gelatina ou, pior do que isso, arroz doce, como alguém pode comer arroz doce, principalmente num pires?
O preconceito era a palavra chave. Preconceito que nos levava a um isolamento quase irracional mas que justificava e paradoxalmente racionalizava tudo. Preconceito que me limitou todo o meu desenvolvimento e me esmagou, mas não só a mim, o exemplo disso foi a minha mãe, pessoa de uma força e inteligência fora de série que nunca se conseguiu libertar daquelas amarras.
Tenho por isso um trabalho de perdão a fazer a este respeito que me envolve a mim e a todos os outros. Esse trabalho será feito, espero eu. Sinto que será talvez a geração que nasceu nos últimos anos a que poderá pela primeira vez crescer livre de tudo isto.
Está realmente na hora de criarmos um mundo novo e melhor! Se assim o entendermos.
Escrevi isto há uns meses atrás e não publiquei, ao contrário do que tenho feito até aí, no facebook e hoje ao reler, perguntei-me porquê. Sempre o medo da exposição, o medo do que os outros possam pensar. Pelos vistos a pesada herança descrita anteriormente persiste e apesar de consciente e parcialmente ultrapassada ela ainda existe.
Existe um sentimento de culpa por criticar aquilo que me foi transmitido, de não concordar, sentimento esse condicionado por todo o meu percurso. Afinal devia estar grato por, apesar de todo o sofrimento que causei, as pessoas terem estado sempre lá e levado comigo.~
Creio que estamos a falar de duas coisas diferentes. Agradeço imenso todo o apoio que os meus pais e irmãos me deram. Sinto-me grato por eles existirem ou terem existido na minha vida.
Outra coisa foi aquilo que eu relatei que ultrapassou a minha casa e contaminou toda uma sociedade, ou usando uma palavra mais leve, influenciou toda uma sociedade. Toda uma maneira de estar socialmente que para mim - e ainda bem que para outros não o foi - foi castrante.
Mas se calhar até vou publicar!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Fábula indiana

Carregador de água na Índia

Um carregador de água na Índia levava dois potes grandes, ambos pendurados em cada ponta de uma vara a qual ele carregava atravessado em seu pescoço.
Um dos potes tinha uma rachadura. Enquanto o outro era perfeito e sempre chegava cheio de água no fim da longa jornada entre o poço e a casa do chefe, o outro chegava apenas com a metade da água.Foi assim por dois anos, diariamente: o carregador entregando um pote e meio de água na casa do chefe.
Claro que o pote estava orgulhoso de suas realizações.Porém, o pote rachado estava envergonhado de sua imperfeição e sentindo-se miserável por ser capaz de realizar apenas metade do que ele havia designado a fazer.
Após perceber que por dois anos havia sido uma falha amarga, o pote falou para o homem, um dia a beira do poço:
Estou envergonhado e quero pedir-lhe desculpas.
Por que?
perguntou o homem
- De que você esta envergonhado?
Nestes dois anos eu fui capaz de entregar apenas a metade de minha carga, porque essa rachadura no meu lado faz com que a água vaze por todo o caminho da casa de seu senhor.
Por causa do meu defeito, você tem que fazer todo esse trabalho e não ganha o salário completo dos seus esforços. Disse o pote.
O homem ficou triste pela situação do velho pote, e com compaixão, falou: quando retornarmos para a casa do meu senhor, quero que percebas as flores ao longo do caminho.
De fato, a medida que eles subiam a montanha, o velho pote rachado notou as flores selvagens ao longo do caminho, e isto lhe deu certo ânimo.
Mas ao final da estrada, o pote rachado ainda se sentia mal porque tinha a metade e de novo, pediu desculpas ao homem por sua falha. Disse, então, o homem ao pote:
Você notou que pelo caminho só havia flores do seu lado?
eu, ao conhecer o seu defeito, tirei vantagem dele e lancei sementes de flores no seu caminho. E cada dia, enquanto voltavamos do poço, você as regava.
Por dois anos eu pude colher flores para ornamentar a mesa do meu senhor. Sem você ser do jeito que é, ele não poderia ter esta beleza para dar graça a sua casa.
"Cada um de nós temos os nossos "defeitos", todos nós somos potes rachados". Porém se permitirmos, podemos usar estes nossos defeitos para embelezar as nossas vidas.
Nunca devemos ter medo dos nossos defeitos.
Se os reconhecermos, eles poderão causar beleza.
Das nossas fraquezas podemos tirar forças.