Nasci em Angola, no ano de 1963. Sou fruto de uma geração extremamente condicionada a um regime ditatorial que criou uma complexa mentalidade de dever, obrigação, resignação que ainda agora, passados mais de 35 anos do 25 de Abril, persiste em muitos lados como uma pesada herança cultural.
Em minha casa não se falava dos problemas. Em minha casa pouco se falava. Os "outros" não entravam na minha casa, apreendi desde que me conheço que os outros são uma ameaça. Por isso arranja-se sempre defeitos neles, nunca nos poderão atingir...Surgiu o célebre humor de família de que fazemos brado como se fosse a única coisa a transmitir aos outros, mas isso só nos têm trazido dissabores.
Porque muitas vezes o sarcasmo é diferente do humor e as outras pessoas não gostam. E quando o humor é dito na defensiva deixa de ser humor e passa a ser arma de arremesso. E acontecia que as pessoas se afastavam porque nimguem atura isso muito tempo e ficavamos todos muito espantados porquê...
Apercebo-me agora quando o meu conselheiro falava de onde aprendi a táctica de apanhar o ponto fraco dos outros e de usá~lo quando necessário, de onde veio.
Nada disto era feito por maldade. Uma das caracteristicas humana tão bem aproveitadas naqueles tempos era a racionalização. Arranjava-se racionalizações para tudo. Para o sacrifício, para o isolamento, para a tristeza, para o silêncio. Nem que seja porque era a vontade de Deus!
Assim também se arranjavam racionalizações para mantermos os outros há distância, desde a diferença de classes sociais, mas principalmente (porque por aí, na diferença de classes, existia um terreno não conquistado por nós a nível económico) , pela cultura, pela maneira como falavam, como se comportavam, até pelo facto de comerem gelatina ou, pior do que isso, arroz doce, como alguém pode comer arroz doce, principalmente num pires?
O preconceito era a palavra chave. Preconceito que nos levava a um isolamento quase irracional mas que justificava e paradoxalmente racionalizava tudo. Preconceito que me limitou todo o meu desenvolvimento e me esmagou, mas não só a mim, o exemplo disso foi a minha mãe, pessoa de uma força e inteligência fora de série que nunca se conseguiu libertar daquelas amarras.
Tenho por isso um trabalho de perdão a fazer a este respeito que me envolve a mim e a todos os outros. Esse trabalho será feito, espero eu. Sinto que será talvez a geração que nasceu nos últimos anos a que poderá pela primeira vez crescer livre de tudo isto.
Está realmente na hora de criarmos um mundo novo e melhor! Se assim o entendermos.
Escrevi isto há uns meses atrás e não publiquei, ao contrário do que tenho feito até aí, no facebook e hoje ao reler, perguntei-me porquê. Sempre o medo da exposição, o medo do que os outros possam pensar. Pelos vistos a pesada herança descrita anteriormente persiste e apesar de consciente e parcialmente ultrapassada ela ainda existe.
Existe um sentimento de culpa por criticar aquilo que me foi transmitido, de não concordar, sentimento esse condicionado por todo o meu percurso. Afinal devia estar grato por, apesar de todo o sofrimento que causei, as pessoas terem estado sempre lá e levado comigo.~
Creio que estamos a falar de duas coisas diferentes. Agradeço imenso todo o apoio que os meus pais e irmãos me deram. Sinto-me grato por eles existirem ou terem existido na minha vida.
Outra coisa foi aquilo que eu relatei que ultrapassou a minha casa e contaminou toda uma sociedade, ou usando uma palavra mais leve, influenciou toda uma sociedade. Toda uma maneira de estar socialmente que para mim - e ainda bem que para outros não o foi - foi castrante.
Mas se calhar até vou publicar!