Chamava-se Príncipe Perfeito, o barco, ainda hoje tenho na memória, apesar de nunca mais ter andado num barco grande, do quanto gostava daquele cheiro a barco acabado de pintar e fresco. Estavamos em 1974 e tinha uma vaga ideia de que nada iria ser como dantes.
Naquele dia, uns meses antes, tinham-me deixado na escola e passados uns minutos informaram-me de que não havia aulas. Tinha havido alguma coisa no Continente que eu não percebera bem o que era mas que pelos vistos tinha sido importante. Na minha memória apareceu-me agora pela primeira vez a imagem, dias antes, duma manifestação de alunos que terminara com a queima dum carro alegórico que dizia Pide Dgs. Estávamos a iniciar uma nova época em Portugal, a Democracia chegara finalmente. Eu tinha 10 anos e vivia em Luanda.
Aproveitando as férias pagas no Continente que ciclicamente os funcionários do Estado tinham, os meus pais preparavam o regresso final. Lembro-me de ter ido comprar calças para chegar apresentável!
Foi já no barco que soube com prazer que o Paulo iria comigo. Frequentara a Alliance Française comigo nesse ano. Durante a viagem, lembro-me do sentimento bom dos nossos jogos de xadrez e dos irmão dele, do Luís e das gémeas de 6 anos por quem senti uma atracção que não percebia o que era. Com 10 anos, entrava eu também aos poucos num mundo que não conhecia e que me desorientava, desta vez interior.
Lembro-me do prazer que senti quando me convidas-te para os teus anos, uns dias mais tarde em Lisboa. Apercebia-me, aos poucos, que a mudança era bastante grande e a solidão que senti quando cheguei a Lisboa e deparei-me com uma cidade completamente estranha era apenas mitigada, sabes, com o pensamento de que tinha um amigo e que iria brevemente aos anos dele.
Nunca soube o que se passou, se foram diferenças sociais, financeiras ou politicas que levaram a tua mãe a fazer aquilo. Apenas um telefonema, na véspera dos teus anos, para ir ter contigo e com a tua mãe à Mexicana e o meu contentamento por esse convite. Ao breve lanche, sou informado que afinal não podia ir aos teus anos. Assim. Sem explicações. Sem mais nada. Assim como o silêncio que se fez, silêncio envergonhado, tão diferente do silêncio que faço e prezo hoje em dia nas minhas meditações, quando eu contei à minha mãe ao chegar a casa.
Sabes, esses silêncios que eu levei décadas a revoltar-me interiormente eram como punhaladas dentro de mim. Sinto uma gratidão imensa por ter encontrado uma nova forma de silêncio totalmente oposta que me permite conhecer-me em vez de me perder e relacionar-me em vez de me isolar.
Mas na altura aquilo era horrível, apenas aliviado pela primeira fuga que experimentei , a fantasia, onde, com a porta fechada do meu quarto, fantasiava um mundo onde tu e tanta outra gente me dava importância, me conseguia transmitir Amor e eu aceitá~lo e retribuir. Só que depois abria a porta do quarto e custava tanto enfrentar a realidade, aquele frio também desconhecido para mim que chegava com o outono, o não conseguir comunicar com ninguém!
Sei, meu amigo, que a vida foi ingrata para ti e para os teus irmãos. Nunca mais privei contigo mas fi-lo com o teu irmão e principalmente com as tuas irmãs, que por paradoxo, foram as pessoas que mais me aceitaram no meu percurso. Sei que a adição atingiu-nos a todos sem excepção e que acabas-te por ser vitima de uma overdose. És agora mais uma estrela que brilha e que pelos vistos continua no meu pensamento. Dos teus irmãos, sei que as gémeas estavam bem e em recuperação e que o teu irmão ia e vinha, mas ia-se aguentando.
Queria apenas dizer-te que te perdoo assim como à tua mãe. Sabes, hoje eu estou rodeado de amor da minha família e dos meus amigos. Descobri um mundo, uma forma, em que consigo falar, comunicar, amar. Incompleto, com defeitos, mas consigo. Ultrapassei em muito as melhores expectativas que tinha de que um dia as coisas poderiam mudar. Neste mundo cada vez há menos espaço para ressentimentos e apenas quero dizer-te, estejas onde estiveres, que gostei muito das nossas partidas de xadrez naquela longa viagem de barco, que tens uns irmãos muito bonitos e que eu estou bem.
E que continues a brilhar!
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