Coda
Constança Dependente, Coda como lhe chamavam,estava sentada com a imensidão do mar à sua frente. Questionava o que lhe aconteceria se resolvesse mergulhar naquelas ondas que quase batiam nos seus pés.
Noutras alturas Constança tinha também permanecido horas ali olhando o horizonte e ganhando forças para enfrentar a sua vida.
Desde pequena, quase a partir da mesma altura que lhe tinham começado a chamar Coda, sabe-se lá porquê, que a vida dela (segundo ela) tinha sido exactamente isso: enfrentar, uma luta. Primeiro com o pai, depois com a mãe, depois com Vítor…
E depois de anos e anos Vítor, pura e simplesmente, tinha saído do país e ido para o País dos Gelados… Nunca pensara que sentiria a falta daquele Vítor do antigamente que muitas vezes era necessário trazer de rastos para casa de tal maneira ele estava. E sentia essa falta, quase que gritava por ele.
Toda a vida providenciara os gelados para aqueles três seres e agora dois morreram e o outro dizia ter encontrado uma nova forma de vida, o parvalhão, ela andara décadas a resolver-lhe as coisas, a criar-lhe a vida dele e agora…
Sentia um vazio do tamanho do mundo, uma solidão enorme, um buraco gigantesco. Sentia-se brutalmente sozinha, não tinha objectivos.
Aquele reino já não lhe fazia sentido nenhum, tinha imensa atracão pelo País dos Gelados, Vítor dissera-lhe que havia de gostar, mas como gostar do sítio e das pessoas que lhe tinham roubado a razão de viver?
Está uma pessoa a dedicar-se a 100% aos outros, a amar desta maneira e… merda para isto!
Apercebeu-se de que não tinha forças, coragem ou lá o que isso era para fazer o que pensara. Inclusive era como se aquele mar que ela tanto amava lhe dissesse que não, que não a queria assim, que era impossível modificar daquela maneira a relação que tinham.
E levantou-se. Indecisa. Mas estranhamente com alguma esperança!
Pedro Múrias (Pessoas precisam de Pessoas)
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Prefácio
Quanta vida tem uma vida? Aliás, quantas vidas tem uma vida?
O sociólogo francês Pierre Bourdieu escreveu um dia um artigo intitulado A Ilusão Biográfica, onde defendia que uma “história de vida” é sempre uma ilusão e um artifício, criado a partir de um paradigma emergente da implantação da “literatura moderna”. Acreditava Bourdieu, que esta ilusão advêm de se acreditar que por se ter sempre o mesmo nome (e número de bilhete de identidade), somos sempre a mesma pessoa, e que a nossa vida decorre numa linearidade cronológica, com principio, meio e fim, tal como num romance ou numa peça de teatro.
Contar uma “história de vida” é falar de muitas vidas, mas que afinal são sempre a mesma…sem o ser. E olhar para o passado, com os olhos do presente, provoca irremediavelmente uma nova leitura, um novo “passado” e uma nova “história”.
O grande Orson Wells, no seu filme Citizen Kane levou esta noção ao extremo e criou uma obra de arte maravilhosa sobre as várias “histórias de vida” de um cidadão que acaba de falecer, vistas pelo olhar dos que viveram e conviveram com ele. A(s) vida(s) deste ser humano revela-se um caleidoscópio, reflectido num jogo de espelhos, fragmentados, mas ao mesmo tempo unidos no caos ordenado que é a percepção (ou ilusão) do que é uma vida e do que é ser uma “pessoa”.
O meu querido amigo Pedro Múrias, companheiro desta viagem que é a vida ( mesmo que não saibamos que rumo leva ), revela-se, desvela-se e desnuda-se, nesta história, que é a “sua” história, mas que ao mesmo tempo é a história de todos os Pedros que passaram e continuam a passar, por ele, e a ser ele.
São histórias de um Pedro grande e viajado (por si mesmo), que retoma percursos, e que vai visitar (e dar a mão emocionada) aos Pedros que conheceu e aprendeu.
É uma história de vida, de morte e renascimento, de sofrimento atroz, e de procura da luz e do amor. É a história de vida de alguém que toca a minha vida (e a transforma e colora).
É a história de vida que muda vidas, porque o amor e a esperança são o sol do renascimento.
Álvaro Alexandre Ferreira
O sociólogo francês Pierre Bourdieu escreveu um dia um artigo intitulado A Ilusão Biográfica, onde defendia que uma “história de vida” é sempre uma ilusão e um artifício, criado a partir de um paradigma emergente da implantação da “literatura moderna”. Acreditava Bourdieu, que esta ilusão advêm de se acreditar que por se ter sempre o mesmo nome (e número de bilhete de identidade), somos sempre a mesma pessoa, e que a nossa vida decorre numa linearidade cronológica, com principio, meio e fim, tal como num romance ou numa peça de teatro.
Contar uma “história de vida” é falar de muitas vidas, mas que afinal são sempre a mesma…sem o ser. E olhar para o passado, com os olhos do presente, provoca irremediavelmente uma nova leitura, um novo “passado” e uma nova “história”.
O grande Orson Wells, no seu filme Citizen Kane levou esta noção ao extremo e criou uma obra de arte maravilhosa sobre as várias “histórias de vida” de um cidadão que acaba de falecer, vistas pelo olhar dos que viveram e conviveram com ele. A(s) vida(s) deste ser humano revela-se um caleidoscópio, reflectido num jogo de espelhos, fragmentados, mas ao mesmo tempo unidos no caos ordenado que é a percepção (ou ilusão) do que é uma vida e do que é ser uma “pessoa”.
O meu querido amigo Pedro Múrias, companheiro desta viagem que é a vida ( mesmo que não saibamos que rumo leva ), revela-se, desvela-se e desnuda-se, nesta história, que é a “sua” história, mas que ao mesmo tempo é a história de todos os Pedros que passaram e continuam a passar, por ele, e a ser ele.
São histórias de um Pedro grande e viajado (por si mesmo), que retoma percursos, e que vai visitar (e dar a mão emocionada) aos Pedros que conheceu e aprendeu.
É uma história de vida, de morte e renascimento, de sofrimento atroz, e de procura da luz e do amor. É a história de vida de alguém que toca a minha vida (e a transforma e colora).
É a história de vida que muda vidas, porque o amor e a esperança são o sol do renascimento.
Álvaro Alexandre Ferreira
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