quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Coda

Coda

Constança Dependente, Coda como lhe chamavam,estava sentada com a imensidão do mar à sua frente. Questionava o que lhe aconteceria se resolvesse mergulhar naquelas ondas que quase batiam nos seus pés.
Noutras alturas Constança tinha também permanecido horas ali olhando o horizonte e ganhando forças para enfrentar a sua vida.

Desde pequena, quase a partir da mesma altura que lhe tinham começado a chamar Coda, sabe-se lá porquê, que a vida dela (segundo ela) tinha sido exactamente isso: enfrentar, uma luta. Primeiro com o pai, depois com a mãe, depois com Vítor…

E depois de anos e anos Vítor, pura e simplesmente, tinha saído do país e ido para o País dos Gelados… Nunca pensara que sentiria a falta daquele Vítor do antigamente que muitas vezes era necessário trazer de rastos para casa de tal maneira ele estava. E sentia essa falta, quase que gritava por ele.

Toda a vida providenciara os gelados para aqueles três seres e agora dois morreram e o outro dizia ter encontrado uma nova forma de vida, o parvalhão, ela andara décadas a resolver-lhe as coisas, a criar-lhe a vida dele e agora…

Sentia um vazio do tamanho do mundo, uma solidão enorme, um buraco gigantesco. Sentia-se brutalmente sozinha, não tinha objectivos.
Aquele reino já não lhe fazia sentido nenhum, tinha imensa atracão pelo País dos Gelados, Vítor dissera-lhe que havia de gostar, mas como gostar do sítio e das pessoas que lhe tinham roubado a razão de viver?

Está uma pessoa a dedicar-se a 100% aos outros, a amar desta maneira e… merda para isto!

Apercebeu-se de que não tinha forças, coragem ou lá o que isso era para fazer o que pensara. Inclusive era como se aquele mar que ela tanto amava lhe dissesse que não, que não a queria assim, que era impossível modificar daquela maneira a relação que tinham.

E levantou-se. Indecisa. Mas estranhamente com alguma esperança!

Pedro Múrias (Pessoas precisam de Pessoas)

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