terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Raramente falo do meu trabalho e quando falo parece que tenho alguma necessidade de ir puxar a parte menos atractiva e que faz com que depressa as pessoas queiram mudar de assunto. Esqueço-me que o meu trabalho é um trabalho maravilhoso. É fácil esquecermo-nos, perante tanto sofrimento, que o trabalho numa enfermaria, quer de médicos, enfermeiros, auxiliares é um trabalho maravilhoso.
Nós, somos seres muito bons. Temos imensas discussões, tiramos imensos inventários uns dos outros, ás vezes respondemos por vezes rispidamente a doentes ou visitas, mas somos seres excelentes. Somos nós que os medicamos, que lhe damos a comida, que os lavamos, que os auxiliamos nos primeiros novos passos, que lhes tocamos, que os viramos, que corremos quando gritam, que nos despedimos deles.
Se difícil é imaginar toda a beleza deste trabalho difícil será imaginar a beleza do trabalho do enfermeiro em relação ao médico e ainda mais difícil é imaginar a beleza do trabalho do auxiliar...
Se juntarmos a tudo isto um hospital de retaguarda e uma enfermaria de medicina, a maior parte vai deixar de ler por aqui!
Eu gosto muito do meu trabalho, embora passados 16 anos de lidar com doentes ainda estou a tentar descobrir a melhor maneira de andar por cá. Mas isto também por outras razões que ficam para outra altura.
Lidar com a doença e no meu caso especifico com a morte, é algo indescritível a nível de sentimentos. Por muito que tente não dá para descrever.
Nos últimos anos, e disso é que queria falar, realmente envelhecemos. Trabalhei numa medicina há 15 anos e nada tem a ver com o que é esta. As pessoas envelheceram, estão muito mais dependentes e apodrecem durante anos chamando nós vida a uma coisa que é apenas sofrimento. O panorama alterou-se imenso ainda na nossa vida.
Em muitos casos a esperança de vida, felizmente, é acompanhada por alguma qualidade o que são as boas, excelentes noticias. Mas ao que eu assisto diariamente, não é isso. É à perca de dignidade, de se tornar um estorvo para a família e a sociedade, para um sofrimento por vezes indescritível provocado por anos de estar acamado e muitas vezes inconsciente ou noutro mundo.
Nós lá estamos, muitas vezes com as únicas pessoas que lhe ficam e que vão lhes dar assistência. Assistência sempre algo relativa porque nem anjos como nós com trinta e tal doentes e mais alguns em maca conseguimos dar a assistência devida. Mas estamos lá e cumprimos.
Se alguém for contra a eutanásia em casos concretos, gostava que fosse passar uma semana comigo aquela enfermaria. Por vezes pedimos a Deus que leve aquela pessoa com todo aquele sofrimento. Hoje em dia há sempre mais um remédio ou uma máquina para prolongar a vida por 1 dia, 1 mês ou 1 anos. Muitas vezes perante muito, mesmo muito sofrimento.
Quando abatemos animais que estão a sofrer, dizemos que é por compaixão. Quando prolongamos a vida a pessoas em grande sofrimento, o que estamos a fazer?
Claro que todo o trabalho começa por nos darem melhores condições para tratarmos as pessoas, por mais pessoal a trabalhar e por um mudança de mentalidade. Urge voltar ao tempo em que o idoso era o velho sábio. Com o avanço da esperança de vida, com a tecnologia e com o ritmo da vida moderna ( e porque chamamos vida a estados completamente vegetativos ) o idoso passou a ser um fardo e que fardo. Ao passar-se mais tempo a tratar do idoso do que dos filhos, o panorama tornou-se assustador e perde-se a condição humana quando se torna um estorvo.
Se esse estorvo adoece, ainda é pior. As pessoas ficam desesperadas e quem as pode culpar, se elas também não tem condições para nada?
Ás vezes saio do trabalho e respiro fundo, muito fundo. Parece que passo uns momentos em que não estou cá. Felizmente tenho um porto seguro para onde voltar, para a minha mulher, para a minha vida, os meus amigos e consigo assim ver a parte boa de tudo isto, mas eu sou um previligiado!
O próximo debate será certamente esse. Mereço morrer com dignidade. Como se poderá fazer isso? Até lá vou estando por lá eu e muitos outros, agora até vamos abrir um novo hospital! A fazermos o que pudermos.

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