quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


Estava a escrever as primeiras páginas do "Está tudo bem" quando ouvi a noticia num telejornal sobre a Bubok, uma nova editora online com um sistema pioneiro.
Não acredito em coincidências e esse foi mais um exemplo de que tudo acontece por alguma razão. Deixei de me preocupar com o que faria quando acabasse, porque já tinha uma solução!
A Bubok em alguns minutos faz o trabalho que demoraria meses no exterior e que custar-me-ia uma fortuna! Em pouco tempo e sem custo posso publicar um livro.
Claro que não substitui o trabalho tradicional de divulgação, apresentação do livro, nem sequer abre a porta das livrarias,mas faz o que eu realmente queria: publicar. E sem limites!
Pessoas disseram-me que pela primeira vez leram um livro no computador! Claro que não há como o papel. Sei por exemplo que a primeira pessoa que me comprou um e-book imprimiu-o e encadernou-o ela!
E o gozo que me dá diáramente, ou quase, consultar os meu livros e ver que todo os dias um ou dois downlodas foram feitos. Mesmo que sejam gratuitos, para mim é excelente saber que apenas neste canto cibernautico já me fizeram mais de 300s downloads dum livro e mais de 100 do outro. Dá-me força, esperança! Isto alem dos 32 livros que já comprei e já tenho destinatários. Optei por comprá-los e e depois entregar a quem me pede por causa do valor dos portes que torna o livro individual muito mais caro.
Aposto que é por aqui o futuro. E continuarei a publicar! Gosto e atrai-me, por ultimo, o espirito que por aqui se vive, a simplicidade, a amizade e a frontalidade que vou sentindo.
Bem Hajam!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Facebook (e o resto)

Ouvi outro dia na televisão um psicólogo a dizer que o facebook a única coisa que faz é potenciar o numero de relacionamentos de primeiro grau, ou seja, os relacionamentos superficiais...

Esqueceu-se de referir que o mundo de hoje (principalmente o ocidental) é feito dos tais relacionamentos de primeiro grau. Quer sejam do facebook ou não. Que muitas vezes nem ao primeiro grau chegamos ao nem sequer olharmos para a cara de quem nos atende no café ou no supermercado, limitando a proferir os monossílabos indespensáveis (como eu fiz durante anos e anos).

O grau de envolvimento e de intimidade no meu relacionamento com os outros sou sempre eu que o determino e é redutor dizer-se algo a respeito de uma rede social quando as pessoas sai-em de casa ás 6,7, ou 8 da manhã a correr para chegarem atrasadas o menos possível e que passam o dia todo em stress, em competição e em que em muitos e muitos casos não existe espaço para se relacionarem, muito menos para desenvolverem intimidade nos relacionamentos.

Outro dos perigos que existe, segundo aquela reportagem, é a dos predadores sexuais sobretudo em relação aos jovens. Claro que isso é um perigo. Faz parte da educação aos jovens, no mundo actual, alertá-los e vigiá-los deste perigo. No facebook, como em qualquer lugar da net. E do mundo...
Com 11,12 anos ,eu jogava à bola até ás tantas com os meus amigos na rua sem ninguém me vigiar. Na terceira classe ia sozinho para o colégio de eléctrico na Av. da Boavista no Porto. Hoje não se faz isso porque nesse aspecto o mundo está mais perigoso.
Isto já para não falar da questão simples de como um jovem troca horas de futebol ou de brincadeira com outros pelo facebook; ou pela televisão, ou pelos jogos de computador, ou... não é um fenómeno particular mas sim de sociedade.
Alem disso tenho observado como -se calhar sou eu, porque tenho os melhores amigos do mundo!- as pessoas se podem tornar muito mais elas no facebook. Conheço pessoas que são extremamente tímidas e que no facebook revelam facetas que nunca descobriria pelo contacto pessoal.

Mas já me estou a esticar, fico-me pelos relacionamentos. Estranho fenómeno que de repente faz entrar pela vida das pessoas, de uma forma diferente, pessoas de quem não sabia nada há 20 anos, outras de quem nem se lembrava, outras ainda que nunca viu nem conheceu e que aceita porque se é amigo de tal e tal... E de repente os seus 10 ou 20 amigos passa para um universo de 200, 300 ou mesmo mais de 1000 amigos.

Com aqueles que não se vê há mais de 20 anos, depois da excitação inicial, segue a vida e o.k., estás aí, tudo bem!... Calculo que na maior parte dos casos aconteça como comigo e nunca se readquire o que já se teve -até porque além de impossivel não é essa a nossa opção- mas é bom e é positivo tê-los reencontrado, saber que estão bem, que até guardam boas recordações de nós. Muitas vezes até dá para encerrar de forma positiva e satisfeita o passado e dizer: "valeu a pena, está tudo bem!"

Conheço alguns casos, em particular um, de reconciliação e encontro através do facebook, que não sendo de todo a regra dão um cunho romântico a isto tudo.

Depois temos o dia a dia, um "gosto" aqui e outro ali, a satisfação do "gosto" dos outros, mesmo que sejam dos amigos que não conheço, o sentir que aquele que me dava tantos "gostos" deixou de o fazer (porque será?); hmmm, este hoje pôs isto aqui não deve estar bem", começamos inclusive a conhecer as pessoas pelo que elas publicam (ou não)!

Isto se quisermos olhar dessa forma. Posso sempre estar de pé atrás. Para mim a internet tem uma coisa que em nada a beneficia: o de não ouvirmos a voz nem vermos a pessoa o que me pode levar a fazer interpretações erradas, algumas vezes.
Isso pode dar lugar a mal entendidos, a bloqueio de amigos, mas faz tudo parte! Já bloqueei e desbloqueei amigos até que aprendi a deixar de fazê-lo ou a questionar-me primeiro se é mesmo isso que quero fazer.

É aditivo. É. E eu sou um adito. Mas também tem-me servido a mim, Pedro, a aprender a lidar de uma forma positiva e não aditiva com a Internet!

Depende tudo do ponto de vista e da opção com que escolhemos de ver as coisas. E mais uma vez, não só com o facebook mas com tudo na vida.

Qual é a minha opção, hoje, de como quero ver o Mundo?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Embora (só por hoje) viver na solução!

(Meditação N.A., Só Por Hoje de 15 de Outubro)

"15 de Outubro - Escolhas "Não escolhemos ser adictos".
Texto Básico, p. 4

Quando éramos mais novos todos nós tínhamos sonhos. Qualquer criança já ouviu um familiar ou um vizinho perguntar, "O que é que tu queres fazer quando cresceres?" Mesmo que alguns de nós não tivessem sonhos elaborados de sucesso, a maioria de nós sonhou com um trabalho, com famílias, e com um futuro com dignidade e respeito. Mas não houve ninguém que perguntasse, "Quando cresceres queres ser um adicto?" Não escolhemos ser adictos, e não podemos escolher deixar de ser adictos. Temos a doença da adicção.Não somos responsáveis por tê-la, mas somos responsáveis pela nossa recuperação. Ao aprendermos que somos pessoas doentes e que há um caminho para recuperar, Podemos deixar de culpar as circunstâncias - ou nós próprios - e começar a viver na solução. Não escolhemos a adicção, mas podemos escolher a recuperação. Só por hoje: Eu escolho a recuperação"

(Só Por Hoje, N.A.)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dadi Janki in BBC

just a minute

Preparação do silèncio

Preparação do Silêncio (B. Kumaris)
Por BK Mohini Panjabi


(Mohini Panjabi compartilhou estas ideias num encontro, no âmbito do programa “O Apelo do Tempo”, no Uruguai, em 2001, na preparação de um dia de silêncio).


Numa vida muito ocupada, a oportunidade de desfrutar de um período alargado de silêncio, é um verdadeiro presente; é um momento em que, intencionalmente, afastamos a nossa atenção do tumulto das conversas e compromissos, das imagens e das mensagens, das listas de obrigações, e calmamente, harmonizamo-nos com o nosso espaço interior.

Para alguns de nós, no passado, o silêncio foi-nos imposto como um castigo; por exemplo, um dos nossos pais era capaz de nos repreender: ”Cala-te e vai para o teu quarto!...” O silêncio que praticamos aqui, é uma escolha. Este tipo de silêncio é uma oportunidade para descobrir, para encontrar coisas novas e diferentes. A ausência da fala, quando decidimos não falar, é uma coisa diferente.

O silêncio, não é a falta de comunicação; há uma linguagem subtil que nos conecta com os outros, através dos olhos, de um sorriso ou de um gesto. Nesta linguagem subtil, existe uma “fluência” que apela para a nossa capacidade de observar os pequenos detalhes da vida. À medida que desenvolvemos a nossa capacidade de entender esta linguagem subtil, apercebemo-nos que vamos ficando menos dependentes de dispositivos mecânicos, que tanto nos podem aproximar, como fazer-nos sentir mais afastados dos outros.

Ao deslocarmo-nos para um espaço interior de silêncio, estamos a harmonizar-nos com o espírito da natureza e a abandonar a tendência para a opinião crítica.

O silêncio dá-me a oportunidade de identificar, dentro de mim, as qualidades que têm a capacidade para me transformar. No silêncio, consigo ligar-me à qualidade mais alta, do meu pensamento mais límpido e claro.

As acções emergem das sementes do pensamento; as acções são o fruto dessas sementes. Em que tipo de solo eu decido plantar as sementes dos meus pensamentos?... De violência ou de paz? De raiva ou de amor? Estas escolhas são, já por si, transformadoras.

O tipo de consciência que eu consigo alcançar com o silêncio, tem a ver, directamente, com a qualidade do meu entendimento. O entendimento no “mundo do som”, é um processo cognitivo, enquanto que “no silêncio”, é mais subtil e resulta em realizações que emergem de dentro de nós. São tipos de experiências bem diferentes.

No silêncio, eu descubro as minhas qualidades inatas, aquelas que são intrínsecas a quem eu sou. Aqui, no silêncio, eu toco o meu ser eterno e começo a confiar nesta essência mais profunda.
A experiência do reconhecimento das minhas qualidades únicas e intrínsecas, aumenta a minha capacidade de receber. Em silêncio, alcanço o meu poder interno e experimento confiança, fé, segurança, beleza e merecimento. É a partir da base desta dimensão interna, que as minhas acções evoluem.

No silêncio, eu posso ouvir o chamado de Deus, o chamado da natureza, o chamado daqueles que se encontram necessitados.

O silêncio é um espaço interior de aprendizagem. Quando há alguma coisa que eu não entendo, continuo a insistir até que o esclarecimento venha; então, posso libertar-me disso e sigo em frente.

No silêncio, eu descubro a verdade ao tocar o “eu” verdadeiro. O silêncio faz aumentar a minha capacidade de manter a verdade dentro de mim.

O silêncio é a oportunidade, para descansar no colo da minha própria grandeza. Lembre-se de cuidar de si próprio com a atenção especial, que daria a qualquer grande alma.

O silêncio é a disciplina não do “fazer, mas do “ser”.

Use estes pensamentos acerca do silêncio, como uma bandeja de acepipes, escolhendo o que mais desejar, de modo a auxiliá-lo na sua caminhada em direcção ao seu espaço interno de silêncio.

domingo, 3 de outubro de 2010

Quanta vida tem uma vida? Aliás, quantas vidas tem uma vida?

O sociólogo francês Pierre Bourdieu escreveu um dia um artigo intitulado A Ilusão Biográfica, onde defendia que uma “história de vida” é sempre uma ilusão e um artifício, criado a partir de um paradigma emergente da implantação da “literatura moderna”. Acreditava Bourdieu, que esta ilusão advêm de se acreditar que por se ter sempre o mesmo nome (e número de bilhete de identidade), somos sempre a mesma pessoa, e que a nossa vida decorre numa linearidade cronológica, com principio, meio e fim, tal como num romance ou numa peça de teatro.

Contar uma “história de vida” é falar de muitas vidas, mas que afinal são sempre a mesma…sem o ser. E olhar para o passado, com os olhos do presente, provoca irremediavelmente uma nova leitura, um novo “passado” e uma nova “história”.

O grande Orson Wells, no seu filme Citizen Kane levou esta noção ao extremo e criou uma obra de arte maravilhosa sobre as várias “histórias de vida” de um cidadão que acaba de falecer, vistas pelo olhar dos que viveram e conviveram com ele. A(s) vida(s) deste ser humano revela-se um caleidoscópio, reflectido num jogo de espelhos, fragmentados, mas ao mesmo tempo unidos no caos ordenado que é a percepção (ou ilusão) do que é uma vida e do que é ser uma “pessoa”.

O meu querido amigo Pedro Múrias, companheiro desta viagem que é a vida ( mesmo que não saibamos que rumo leva ), revela-se, desvela-se e desnuda-se, nesta história, que é a “sua” história, mas que ao mesmo tempo é a história de todos os Pedros que passaram e continuam a passar, por ele, e a ser ele.

São histórias de um Pedro grande e viajado (por si mesmo), que retoma percursos, e que vai visitar (e dar a mão emocionada) aos Pedros que conheceu e aprendeu.

É uma história de vida, de morte e renascimento, de sofrimento atroz, e de procura da luz e do amor. É a história de vida de alguém que toca a minha vida (e a transforma e colora).

É a história de vida que muda vidas, porque o amor e a esperança são o sol do renascimento.



Álvaro Alexandre Ferreira

http://www.bubok.pt/libro/detalles/2138/Esta-tudo-bem
 
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sábado, 2 de outubro de 2010

pag. 3 "Está tudo bem!"

(“Tenho saudades que me digas: está tudo bem!”)

Este projecto existe há anos na minha cabeça. Apenas uma vez tentei pô-lo em prática. Ainda não tinha chegado a hora. Desta vez sei que ele vai chegar ao fim, sinto-o.
O meu objectivo é apenas dar o meu testemunho. Um testemunho de dor, mas também de felicidade. De chegar à conclusão que tudo está bem, que afinal mereceu a pena tudo que aconteceu.

Sempre gostei muito de escrever e ela foi durante muito tempo o meu refúgio. Agora o meu objectivo é que ela se transforme no contrário, no meu momento com os outros.
Não escrevi por nenhuma questão terapêutica, esse trabalho foi feito no sítio certo com as pessoas certas; não escrevi porque quero culpar alguém, a responsabilidade de tudo o que aconteceu só a mim pode ser atribuída; escrevi e escrevo porque gosto e pela simples partilha.

Uma série de coincidências levou-me a este impulso final de escrever este livro.
Não seria possível se hoje não estivesse como estou, não tivesse o suporte que tenho, familiar e social.

Á minha mulher em particular e a todas as pessoas que para mim são uns anjos e que passaram pela minha vida ou que estão na minha vida dedico este livro. Todos contribuíram para que hoje possa dizer: está tudo bem!

E é um bocado isso que também é este livro, dizer a esta criança que vai agora nascer, em 31 de Julho de 1963, “ descansa agora, está tudo bem! “

Bem Hajam!

Pedro Múrias
Agosto 2010
http://www.bubok.pt/libro/detalles/2138/Esta-tudo-bem

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Coda

Coda

Constança Dependente, Coda como lhe chamavam,estava sentada com a imensidão do mar à sua frente. Questionava o que lhe aconteceria se resolvesse mergulhar naquelas ondas que quase batiam nos seus pés.
Noutras alturas Constança tinha também permanecido horas ali olhando o horizonte e ganhando forças para enfrentar a sua vida.

Desde pequena, quase a partir da mesma altura que lhe tinham começado a chamar Coda, sabe-se lá porquê, que a vida dela (segundo ela) tinha sido exactamente isso: enfrentar, uma luta. Primeiro com o pai, depois com a mãe, depois com Vítor…

E depois de anos e anos Vítor, pura e simplesmente, tinha saído do país e ido para o País dos Gelados… Nunca pensara que sentiria a falta daquele Vítor do antigamente que muitas vezes era necessário trazer de rastos para casa de tal maneira ele estava. E sentia essa falta, quase que gritava por ele.

Toda a vida providenciara os gelados para aqueles três seres e agora dois morreram e o outro dizia ter encontrado uma nova forma de vida, o parvalhão, ela andara décadas a resolver-lhe as coisas, a criar-lhe a vida dele e agora…

Sentia um vazio do tamanho do mundo, uma solidão enorme, um buraco gigantesco. Sentia-se brutalmente sozinha, não tinha objectivos.
Aquele reino já não lhe fazia sentido nenhum, tinha imensa atracão pelo País dos Gelados, Vítor dissera-lhe que havia de gostar, mas como gostar do sítio e das pessoas que lhe tinham roubado a razão de viver?

Está uma pessoa a dedicar-se a 100% aos outros, a amar desta maneira e… merda para isto!

Apercebeu-se de que não tinha forças, coragem ou lá o que isso era para fazer o que pensara. Inclusive era como se aquele mar que ela tanto amava lhe dissesse que não, que não a queria assim, que era impossível modificar daquela maneira a relação que tinham.

E levantou-se. Indecisa. Mas estranhamente com alguma esperança!

Pedro Múrias (Pessoas precisam de Pessoas)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Prefácio

Quanta vida tem uma vida? Aliás, quantas vidas tem uma vida?

O sociólogo francês Pierre Bourdieu escreveu um dia um artigo intitulado A Ilusão Biográfica, onde defendia que uma “história de vida” é sempre uma ilusão e um artifício, criado a partir de um paradigma emergente da implantação da “literatura moderna”. Acreditava Bourdieu, que esta ilusão advêm de se acreditar que por se ter sempre o mesmo nome (e número de bilhete de identidade), somos sempre a mesma pessoa, e que a nossa vida decorre numa linearidade cronológica, com principio, meio e fim, tal como num romance ou numa peça de teatro.

Contar uma “história de vida” é falar de muitas vidas, mas que afinal são sempre a mesma…sem o ser. E olhar para o passado, com os olhos do presente, provoca irremediavelmente uma nova leitura, um novo “passado” e uma nova “história”.

O grande Orson Wells, no seu filme Citizen Kane levou esta noção ao extremo e criou uma obra de arte maravilhosa sobre as várias “histórias de vida” de um cidadão que acaba de falecer, vistas pelo olhar dos que viveram e conviveram com ele. A(s) vida(s) deste ser humano revela-se um caleidoscópio, reflectido num jogo de espelhos, fragmentados, mas ao mesmo tempo unidos no caos ordenado que é a percepção (ou ilusão) do que é uma vida e do que é ser uma “pessoa”.

O meu querido amigo Pedro Múrias, companheiro desta viagem que é a vida ( mesmo que não saibamos que rumo leva ), revela-se, desvela-se e desnuda-se, nesta história, que é a “sua” história, mas que ao mesmo tempo é a história de todos os Pedros que passaram e continuam a passar, por ele, e a ser ele.

São histórias de um Pedro grande e viajado (por si mesmo), que retoma percursos, e que vai visitar (e dar a mão emocionada) aos Pedros que conheceu e aprendeu.

É uma história de vida, de morte e renascimento, de sofrimento atroz, e de procura da luz e do amor. É a história de vida de alguém que toca a minha vida (e a transforma e colora).

É a história de vida que muda vidas, porque o amor e a esperança são o sol do renascimento.



Álvaro Alexandre Ferreira

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O RIO E O OCEANO

Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme
de medo.
Olha para trás, para toda a jornada,os cumes, as montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos
povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar
nele nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.Voltar é impossível na existência. Você
pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entra no oceano é que o medo
desaparece.
Porque apenas então o rio saberá que não se trata de
desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é
renascimento.
Assim somos nós.
Só podemos ir em frente e arriscar.
Coragem !! Avance firme e torne-se Oceano!!!

Osho

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Parábola de Chuang Tzu

Era uma vez um homem que se sentia tão perturbado ao ver a sua própria sombra e tão desagradado com os seus próprios passos que decidiu ver-se livre de ambos.

O método que encontrou foi fugir para longe deles e, então, levantou-se e começou a correr, mas cada vez que ele assentava um pé no chão e dava um passo, a sua sombra acompanhava-o sem a menor dificuldade.

O homem atribuiu o fracasso ao facto de talvez não estar a correr suficientemente depressa. Portanto, pôs-se a correr cada vez mais depressa, sem parar, até que finalmente caiu morto.

O que ele não conseguiu compreender foi que bastava entrar na sua sombra para que esta desaparecesse, e que se ele se sentasse e ficasse quieto, deixaria de dar passos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O que encontrei na minha primeira reunião? Como diz o seu preâmbulo: “ uma comunidade de homens e mulheres que partilham ente Si a sua experência, força e esperança para resolverem o seu problema comum e ajudarem outros a se recuperarem".
Descobri que não estava sózinho, que havia pessoas que tinham passado por tudo aquilo que eu passei mas principalmente sentiam e pensavam exactamente como eu. E o mais incrivel daquilo tudo era que estavam bem e agora se riam daquilo tudo, do que passaram e daquilo que pensaram; descobri que existia uma solução e que parecia ser bem boa a olhar para aquelas caras bonitas e sorridentes; descobri pessoas que apostaram em mim muito antes de eu o fazer; descobri uma esperança muito concreta e muito real que eu procurava desesperadamente há décadas, descobri tanta coisa!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A generosidade é um dos pilares fundamentais para a aquisição de relacionamentos felizes e harmoniosos. Aquele que partilha o que tem de melhor, recebe milhares de vezes em retorno.
(Brahma Kumaris)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Por vezes tudo parece de pernas para o ar. De onde se esperava amor, surge ódio e de onde se esperava referências vemos a destruição de tudo aquilo que nos disseram. As pessoas são humanas é certo, todos nós o somos, o problema é a ténue fronteira entre...

Essa fronteira é muito construída através dos nossos preconceitos. Se calhar mais vale que as pessoas digam as coisas, mesmo que sem pensar ( e de forma agressiva ) do que acumulem ódios durante anos que é o que me parece que aconteceu.

Sendo assim muitas vezes os sítios que trilhamos não são já tão seguros, as referencias já não são aquelas.

Mas aí é que eu vejo como está tudo bem! Como estou rodeado de Amor e como criei o meu "chão" seguro que no dia de hoje não irá ceder, isso vos garanto. O bem estar é realmente um trabalho interior, não imediato, mas ao fim de certo tempo as coisas estão de tal maneira firmes, que o "investimento" começa a dar os seus frutos.

E mesmo que fique admirado por movimentações completamente fora daquilo que eu acho ser o "esquema normal" isso já não tem importância porque eu estou certo e seguro do que quero.

Para isso tudo tenho-vos a vós que sei gostarem de mim e de quem eu gosto muito!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Nasci em Angola, no ano de 1963. Sou fruto de uma geração extremamente condicionada a um regime ditatorial que criou uma complexa mentalidade de dever, obrigação, resignação que ainda agora, passados mais de 35 anos do 25 de Abril, persiste em muitos lados como uma pesada herança cultural.
Em minha casa não se falava dos problemas. Em minha casa pouco se falava. Os "outros" não entravam na minha casa, apreendi desde que me conheço que os outros são uma ameaça. Por isso arranja-se sempre defeitos neles, nunca nos poderão atingir...Surgiu o célebre humor de família de que fazemos brado como se fosse a única coisa a transmitir aos outros, mas isso só nos têm trazido dissabores.
Porque muitas vezes o sarcasmo é diferente do humor e as outras pessoas não gostam. E quando o humor é dito na defensiva deixa de ser humor e passa a ser arma de arremesso. E acontecia que as pessoas se afastavam porque nimguem atura isso muito tempo e ficavamos todos muito espantados porquê...
Apercebo-me agora quando o meu conselheiro falava de onde aprendi a táctica de apanhar o ponto fraco dos outros e de usá~lo quando necessário, de onde veio.
Nada disto era feito por maldade. Uma das caracteristicas humana tão bem aproveitadas naqueles tempos era a racionalização. Arranjava-se racionalizações para tudo. Para o sacrifício, para o isolamento, para a tristeza, para o silêncio. Nem que seja porque era a vontade de Deus!
Assim também se arranjavam racionalizações para mantermos os outros há distância, desde a diferença de classes sociais, mas principalmente (porque por aí, na diferença de classes, existia um terreno não conquistado por nós a nível económico) , pela cultura, pela maneira como falavam, como se comportavam, até pelo facto de comerem gelatina ou, pior do que isso, arroz doce, como alguém pode comer arroz doce, principalmente num pires?
O preconceito era a palavra chave. Preconceito que nos levava a um isolamento quase irracional mas que justificava e paradoxalmente racionalizava tudo. Preconceito que me limitou todo o meu desenvolvimento e me esmagou, mas não só a mim, o exemplo disso foi a minha mãe, pessoa de uma força e inteligência fora de série que nunca se conseguiu libertar daquelas amarras.
Tenho por isso um trabalho de perdão a fazer a este respeito que me envolve a mim e a todos os outros. Esse trabalho será feito, espero eu. Sinto que será talvez a geração que nasceu nos últimos anos a que poderá pela primeira vez crescer livre de tudo isto.
Está realmente na hora de criarmos um mundo novo e melhor! Se assim o entendermos.
Escrevi isto há uns meses atrás e não publiquei, ao contrário do que tenho feito até aí, no facebook e hoje ao reler, perguntei-me porquê. Sempre o medo da exposição, o medo do que os outros possam pensar. Pelos vistos a pesada herança descrita anteriormente persiste e apesar de consciente e parcialmente ultrapassada ela ainda existe.
Existe um sentimento de culpa por criticar aquilo que me foi transmitido, de não concordar, sentimento esse condicionado por todo o meu percurso. Afinal devia estar grato por, apesar de todo o sofrimento que causei, as pessoas terem estado sempre lá e levado comigo.~
Creio que estamos a falar de duas coisas diferentes. Agradeço imenso todo o apoio que os meus pais e irmãos me deram. Sinto-me grato por eles existirem ou terem existido na minha vida.
Outra coisa foi aquilo que eu relatei que ultrapassou a minha casa e contaminou toda uma sociedade, ou usando uma palavra mais leve, influenciou toda uma sociedade. Toda uma maneira de estar socialmente que para mim - e ainda bem que para outros não o foi - foi castrante.
Mas se calhar até vou publicar!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Fábula indiana

Carregador de água na Índia

Um carregador de água na Índia levava dois potes grandes, ambos pendurados em cada ponta de uma vara a qual ele carregava atravessado em seu pescoço.
Um dos potes tinha uma rachadura. Enquanto o outro era perfeito e sempre chegava cheio de água no fim da longa jornada entre o poço e a casa do chefe, o outro chegava apenas com a metade da água.Foi assim por dois anos, diariamente: o carregador entregando um pote e meio de água na casa do chefe.
Claro que o pote estava orgulhoso de suas realizações.Porém, o pote rachado estava envergonhado de sua imperfeição e sentindo-se miserável por ser capaz de realizar apenas metade do que ele havia designado a fazer.
Após perceber que por dois anos havia sido uma falha amarga, o pote falou para o homem, um dia a beira do poço:
Estou envergonhado e quero pedir-lhe desculpas.
Por que?
perguntou o homem
- De que você esta envergonhado?
Nestes dois anos eu fui capaz de entregar apenas a metade de minha carga, porque essa rachadura no meu lado faz com que a água vaze por todo o caminho da casa de seu senhor.
Por causa do meu defeito, você tem que fazer todo esse trabalho e não ganha o salário completo dos seus esforços. Disse o pote.
O homem ficou triste pela situação do velho pote, e com compaixão, falou: quando retornarmos para a casa do meu senhor, quero que percebas as flores ao longo do caminho.
De fato, a medida que eles subiam a montanha, o velho pote rachado notou as flores selvagens ao longo do caminho, e isto lhe deu certo ânimo.
Mas ao final da estrada, o pote rachado ainda se sentia mal porque tinha a metade e de novo, pediu desculpas ao homem por sua falha. Disse, então, o homem ao pote:
Você notou que pelo caminho só havia flores do seu lado?
eu, ao conhecer o seu defeito, tirei vantagem dele e lancei sementes de flores no seu caminho. E cada dia, enquanto voltavamos do poço, você as regava.
Por dois anos eu pude colher flores para ornamentar a mesa do meu senhor. Sem você ser do jeito que é, ele não poderia ter esta beleza para dar graça a sua casa.
"Cada um de nós temos os nossos "defeitos", todos nós somos potes rachados". Porém se permitirmos, podemos usar estes nossos defeitos para embelezar as nossas vidas.
Nunca devemos ter medo dos nossos defeitos.
Se os reconhecermos, eles poderão causar beleza.
Das nossas fraquezas podemos tirar forças.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Uma lenda Hindú

"Conta uma velha lenda hindu que outrora todos os homens eram deuses, mas abusaram de tal modo da sua natureza divina que Brama, o Senhor dos deuses, decidiu retirar-lhes esse poder divino e escondê-lo em lugar onde lhes fosse impossível encontrá-lo. O problema, contudo, era encontrar esse esconderijo.
Brama convocou, pois, todos os deuses menores a fim de resolver este problema, e a sugestão que eles lhe deram foi enterrar a divindade do homem bem no fundo da terra. Mas Brama respondeu-lhes que isso não seria suficiente pois o homem escavaria a terra e acabaria por reencontrar a sua natureza divina.
Então os deuses sugeriram que se atirasse para o fundo do mar a natureza divina do homem. E de novo Brama lhes respondeu que, mais tarde ou mais cedo, o homem exploraria as profundezas do mar e a recuperaria.
Os deuses menores já não sabiam que outros lugares poderiam existir, quer na terra quer no mar, onde o homem não conseguisse chegar um dia.
Então Brama disse: "Vamos fazer o seguinte com a natureza divina do homem: vamos encondê-la bem no fundo de si mesmo, pois será esse o único lugar onde o homem nunca a irá procurar."
E desde esse dia, segundo conta a lenda, o homem tem percorrido e explorado o mundo, subido às montanhas mais altas e descido às grandes profundezas da terra e do mar, sempre à procura do que está dentro de si próprio."

A Flor de Lotus

"
Certo dia, à margem de um tranquilo lago solitário, a cuja margem se erguiam frondosas árvores com perfumosas flores de mil cores, e coalhadas de ninhos onde aves canoras chilreavam, encontraram-se quatro elementos irmãos: o fogo, o ar, a água e a terra.
- Quanto tempo sem nos vermos em nossa nudez primitiva - disse o fogo cheio de entusiasmo, como é de sua natureza.
É verdade - disse o ar. - É um destino bem curioso o nosso. À custa de tanto nos prestarmos para construir formas e mais formas, tornamo-nos escravos de nossa obra e perdemos nossa liberdade.
- Não te queixes - disse a água -, pois estamos obedecendo à Lei, e é um Divino Prazer servir à Criação. Por outro lado, não perdemos nossa liberdade; tu corres de um lado para outro, à tua vontade; o irmão fogo, entra e sai por toda parte servindo a vida e a morte. Eu faço o mesmo. - Em todo o caso, sou eu quem deveria me queixar - disse a terra - pois estou sempre imóvel, e mesmo sem minha vontade, dou voltas e mais voltas, sem descansar no mesmo espaço.
- Não entristeçais minha felicidade ao ver-nos - tornou a dizer o fogo - com discussões supérfluas. É melhor festejarmos estes momentos em que nos encontrarmos fora da forma. Regozijemo-nos à sombra destas árvores e à margem deste lago formado pela nossa união. Todos o aplaudiram e se entregaram ao mais feliz companheirismo. Cada um contou o que havia feito durante sua longa ausência, as maravilhas que tinham construído e destruído. Cada um se orgulhou de se haver prestado para que a Vida se manifestasse através de formas sempre mais belas e mais perfeitas. E mais se regozijaram, pensando na multidão de vezes que se uniram fragmentariamente para o seu trabalho.
Em meio de tão grande alegria, existia uma nuvem: o homem. Ah! como ele era ingrato. Haviam-no construído com seus mais perfeitos e puros materiais, e o homem abusava deles, perdendo-os. Tiveram desejo de retirar sua cooperação e privá-lo de realizar suas experiências no plano físico. Porém a nuvem dissipou-se e a alegria voltou a reinar entre os quatro irmãos. Aproximando-se o momento de se separarem, pensaram em deixar uma recordação que perpetuasse através das idades a felicidade de seu encontro. Resolveram criar alguma coisa especial que, composta de fragmentos de cada um deles harmonicamente combinados, fosse também a expressão de suas diferenças e independência, e servisse de símbolo e exemplo para o homem. Houve muitos projectos que foram abandonados por serem incompletos e insuficientes. Por fim, reflectindo-se no lago, os quatro disseram: - E se construíssemos uma planta cujas raízes estivessem no fundo do lago, a haste na água e as folhas e flores fora dela? - A ideia pareceu digna de experiência.
Eu porei as melhores forças de minhas entranhas - disse a terra - e alimentarei suas raízes.
Eu porei as melhores linfas de meus seios - disse a água - e farei crescer sua haste. -
Eu porei minhas melhores brisas - disse o ar - e tonificarei a planta.
- Eu porei todo o meu calor - disse o fogo - para dar às suas corolas as mais formosas cores.
Dito e feito. Os quatro irmãos começaram a sua obra. Fibra sobre fibra foram construídas as raízes, a haste, as folhas e as flores. O sol abençoou-a e a planta deu entrada na flora regional, saudada como rainha.
Quando os quatro elementos se separaram, a Flor de Lótus brilhava no lago em sua beleza imaculada, e servia para o homem como símbolo da pureza e perfeição humana.
Consultaram-se os astros, e foi fixada a data de 8 de maio - quando a Terra está sob a influência da Constelação de Taurus, símbolo do Poder Criador - para a comemoração que desde épocas remotas se tem perpetuado através das idades. Foi espalhada esta comemoração por todos os países do Ocidente, e, em 1948, o dia 8 de Maio se tomou também o "Dia da Paz". "
(Portal da Índia)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Chamava-se Príncipe Perfeito, o barco, ainda hoje tenho na memória, apesar de nunca mais ter andado num barco grande, do quanto gostava daquele cheiro a barco acabado de pintar e fresco. Estavamos em 1974 e tinha uma vaga ideia de que nada iria ser como dantes.
Naquele dia, uns meses antes, tinham-me deixado na escola e passados uns minutos informaram-me de que não havia aulas. Tinha havido alguma coisa no Continente que eu não percebera bem o que era mas que pelos vistos tinha sido importante. Na minha memória apareceu-me agora pela primeira vez a imagem, dias antes, duma manifestação de alunos que terminara com a queima dum carro alegórico que dizia Pide Dgs. Estávamos a iniciar uma nova época em Portugal, a Democracia chegara finalmente. Eu tinha 10 anos e vivia em Luanda.

Aproveitando as férias pagas no Continente que ciclicamente os funcionários do Estado tinham, os meus pais preparavam o regresso final. Lembro-me de ter ido comprar calças para chegar apresentável!
Foi já no barco que soube com prazer que o Paulo iria comigo. Frequentara a Alliance Française comigo nesse ano. Durante a viagem, lembro-me do sentimento bom dos nossos jogos de xadrez e dos irmão dele, do Luís e das gémeas de 6 anos por quem senti uma atracção que não percebia o que era. Com 10 anos, entrava eu também aos poucos num mundo que não conhecia e que me desorientava, desta vez interior.
Lembro-me do prazer que senti quando me convidas-te para os teus anos, uns dias mais tarde em Lisboa. Apercebia-me, aos poucos, que a mudança era bastante grande e a solidão que senti quando cheguei a Lisboa e deparei-me com uma cidade completamente estranha era apenas mitigada, sabes, com o pensamento de que tinha um amigo e que iria brevemente aos anos dele.
Nunca soube o que se passou, se foram diferenças sociais, financeiras ou politicas que levaram a tua mãe a fazer aquilo. Apenas um telefonema, na véspera dos teus anos, para ir ter contigo e com a tua mãe à Mexicana e o meu contentamento por esse convite. Ao breve lanche, sou informado que afinal não podia ir aos teus anos. Assim. Sem explicações. Sem mais nada. Assim como o silêncio que se fez, silêncio envergonhado, tão diferente do silêncio que faço e prezo hoje em dia nas minhas meditações, quando eu contei à minha mãe ao chegar a casa.
Sabes, esses silêncios que eu levei décadas a revoltar-me interiormente eram como punhaladas dentro de mim. Sinto uma gratidão imensa por ter encontrado uma nova forma de silêncio totalmente oposta que me permite conhecer-me em vez de me perder e relacionar-me em vez de me isolar.
Mas na altura aquilo era horrível, apenas aliviado pela primeira fuga que experimentei , a fantasia, onde, com a porta fechada do meu quarto, fantasiava um mundo onde tu e tanta outra gente me dava importância, me conseguia transmitir Amor e eu aceitá~lo e retribuir. Só que depois abria a porta do quarto e custava tanto enfrentar a realidade, aquele frio também desconhecido para mim que chegava com o outono, o não conseguir comunicar com ninguém!
Sei, meu amigo, que a vida foi ingrata para ti e para os teus irmãos. Nunca mais privei contigo mas fi-lo com o teu irmão e principalmente com as tuas irmãs, que por paradoxo, foram as pessoas que mais me aceitaram no meu percurso. Sei que a adição atingiu-nos a todos sem excepção e que acabas-te por ser vitima de uma overdose. És agora mais uma estrela que brilha e que pelos vistos continua no meu pensamento. Dos teus irmãos, sei que as gémeas estavam bem e em recuperação e que o teu irmão ia e vinha, mas ia-se aguentando.
Queria apenas dizer-te que te perdoo assim como à tua mãe. Sabes, hoje eu estou rodeado de amor da minha família e dos meus amigos. Descobri um mundo, uma forma, em que consigo falar, comunicar, amar. Incompleto, com defeitos, mas consigo. Ultrapassei em muito as melhores expectativas que tinha de que um dia as coisas poderiam mudar. Neste mundo cada vez há menos espaço para ressentimentos e apenas quero dizer-te, estejas onde estiveres, que gostei muito das nossas partidas de xadrez naquela longa viagem de barco, que tens uns irmãos muito bonitos e que eu estou bem.
E que continues a brilhar!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Tráfego de Controlo (B. Kumaris)


Tráfego de Controlo

Uma Meditação: o Controlo de Tráfego


À medida que os dias se tornam mais agitados, num mundo cada vez mais agitado, eis um exercício curto, prático e poderoso que pode ser integrado na sua rotina diária. Durante o dia, a intervalos regulares, pare o que estiver a fazer (se for possível naquele momento), e afaste a atenção de tudo o que o rodeia; alguns praticantes de meditação fazem este Controlo de Tráfego (o controlo do tráfego dos nossos pensamentos…) praticando 3 minutos de silêncio às 10.30h, 12.30h, 17.30h, 19.30h e ao deitar. Outros preferem parar 1 minuto a cada hora.


Quando parar, dirija a sua atenção para dentro de si… tornar-se-á consciente do pesado tráfego de pensamentos que passam na sua mente; à medida que começar a observá-los, eles começarão naturalmente, a abrandar. Então, lembre-se apenas de quem é: uma alma cheia de paz, mestre da sua mente e do seu corpo…; a prática regular desse exercício de 3 minutos, capacita-o a melhorar rapidamente a concentração, a atenção e a energia, podendo então voltar a direccioná-las, para o que quer que esteja a fazer.

Preparação do Silêncio (B. Kumaris)

Por BK Mohini Panjabi


(Mohini Panjabi compartilhou estas ideias num encontro, no âmbito do programa “O Apelo do Tempo”, no Uruguai, em 2001, na preparação de um dia de silêncio).


Numa vida muito ocupada, a oportunidade de desfrutar de um período alargado de silêncio, é um verdadeiro presente; é um momento em que, intencionalmente, afastamos a nossa atenção do tumulto das conversas e compromissos, das imagens e das mensagens, das listas de obrigações, e calmamente, harmonizamo-nos com o nosso espaço interior.

Para alguns de nós, no passado, o silêncio foi-nos imposto como um castigo; por exemplo, um dos nossos pais era capaz de nos repreender: ”Cala-te e vai para o teu quarto!...” O silêncio que praticamos aqui, é uma escolha. Este tipo de silêncio é uma oportunidade para descobrir, para encontrar coisas novas e diferentes. A ausência da fala, quando decidimos não falar, é uma coisa diferente.

O silêncio, não é a falta de comunicação; há uma linguagem subtil que nos conecta com os outros, através dos olhos, de um sorriso ou de um gesto. Nesta linguagem subtil, existe uma “fluência” que apela para a nossa capacidade de observar os pequenos detalhes da vida. À medida que desenvolvemos a nossa capacidade de entender esta linguagem subtil, apercebemo-nos que vamos ficando menos dependentes de dispositivos mecânicos, que tanto nos podem aproximar, como fazer-nos sentir mais afastados dos outros.

Ao deslocarmo-nos para um espaço interior de silêncio, estamos a harmonizar-nos com o espírito da natureza e a abandonar a tendência para a opinião crítica.

O silêncio dá-me a oportunidade de identificar, dentro de mim, as qualidades que têm a capacidade para me transformar. No silêncio, consigo ligar-me à qualidade mais alta, do meu pensamento mais límpido e claro.

As acções emergem das sementes do pensamento; as acções são o fruto dessas sementes. Em que tipo de solo eu decido plantar as sementes dos meus pensamentos?... De violência ou de paz? De raiva ou de amor? Estas escolhas são, já por si, transformadoras.

O tipo de consciência que eu consigo alcançar com o silêncio, tem a ver, directamente, com a qualidade do meu entendimento. O entendimento no “mundo do som”, é um processo cognitivo, enquanto que “no silêncio”, é mais subtil e resulta em realizações que emergem de dentro de nós. São tipos de experiências bem diferentes.

No silêncio, eu descubro as minhas qualidades inatas, aquelas que são intrínsecas a quem eu sou. Aqui, no silêncio, eu toco o meu ser eterno e começo a confiar nesta essência mais profunda.
A experiência do reconhecimento das minhas qualidades únicas e intrínsecas, aumenta a minha capacidade de receber. Em silêncio, alcanço o meu poder interno e experimento confiança, fé, segurança, beleza e merecimento. É a partir da base desta dimensão interna, que as minhas acções evoluem.

No silêncio, eu posso ouvir o chamado de Deus, o chamado da natureza, o chamado daqueles que se encontram necessitados.

O silêncio é um espaço interior de aprendizagem. Quando há alguma coisa que eu não entendo, continuo a insistir até que o esclarecimento venha; então, posso libertar-me disso e sigo em frente.

No silêncio, eu descubro a verdade ao tocar o “eu” verdadeiro. O silêncio faz aumentar a minha capacidade de manter a verdade dentro de mim.

O silêncio é a oportunidade, para descansar no colo da minha própria grandeza. Lembre-se de cuidar de si próprio com a atenção especial, que daria a qualquer grande alma.

O silêncio é a disciplina não do “fazer, mas do “ser”.

Use estes pensamentos acerca do silêncio, como uma bandeja de acepipes, escolhendo o que mais desejar, de modo a auxiliá-lo na sua caminhada em direcção ao seu espaço interno de silêncio.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Por Gibran Khalil Gibran (livro "O profeta")

Uma mulher disse: "Fala-nos da Dor."E ele respondeu:"Vossa dor é o quebrar da concha que encerra vossa compreensão.
Como a semente da fruta deve se quebrar para que seu coração apareça ante o sol, assim também deveis conhecer a dor.
Se vossos corações pudessem se manter sempre maravilhados com o milagre diário de vossas vidas, a vossa dor não vos pareceria menos maravilhosa que vossa alegria; E aceitaríeis as estações de vosso coração, como sempre aceitastes as estações que passam sobre vossos campos.E esperaríeis com serenidade durante os invernos de vossa aflição.

Muitas de vossas dores vós mesmos as escolhestes.É o remédio mais amargo com o qual vosso médico interior cura o vosso Eu doente.
Portanto, confiai no médico, e bebei seu remédio em silêncio e tranqüilidade:Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão do Invisível.E a taça que ele vos dá, embora queime vossos lábios, foi fabricada com o barro que o Oleiro umedeceu com Suas lágrimas sagradas."

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

comentário ao artigo do meu primo e meu homónimo

De Pedro a 9 de Janeiro de 2010 às 17:29

Pedro:

Vi o meu tio, teu pai, meia dúzia de vezes, se tanto. Contudo eu não tenho recordações de grande felicidade em criança, não que não mas proporcionassem mas porque era assim que eu as vivia. Das maiores recordações de felicidade que permanece na minha memória há 35 anos foi duma tarde que passei a brincar em tua casa contigo e com as tuas irmãs. Lembro-me dele ter chegado ao fim do dia e de me ter dispensado atenção e brincado comigo.
Como eu desejei que esse dia se repetisse ! Nunca aconteceu, não sei porquê. Também nunca se falava de nada e por causa do silêncio nunca soube o porquê de muitas coisas.
Lembro-me do teu pai ser vitima daquilo que eu menos gosto na minha família e que é da critica silenciosa... Mas também me lembro do brilho clandestino nos olhos do meu irmão Paulo quando vinha de estar com ele com uma seara nova debaixo do braço. Sempre me fascinou aquela clandestinidade que permanecia já com a liberdade.
Quando ele faleceu, ouvi a noticia na rádio e dei-a ao meu pai. Vejo agora, como já completamente tomado pelo meu processo de alcoolismo, transmiti duma forma tão bruta a noticia ao irmão dele, meu pai. Mais um dano que causei aquele senhor...
O Jornal foi o semanário que me acompanhou anos e me iluminava os momentos, cada vez mais raros, de sobriedade.
Não sou nada saudosista e acredito que vivemos num mundo realmente melhor. Para isso ter sido possível é porque pessoas como o teu pai lutaram e a quem eu estou para sempre grato.
Se hoje questões como o aborto, o casamento homossexual e brevemente a eutanásia estão a ser enfrentadas é porque alguém iniciou a luta por um mundo melhor. Existem muitas coisas para melhorar, algumas até pioraram? Continuemos a acreditar então, que é possível melhorar.
Tudo isto me fizeste recordar e agradeço-te, assim como agradeço aquela tarde de 1974 a ti e à tua família.
Pedro Múrias

Awakening

27 de Janeiro - Aprender a viver de novo

"Aprendemos novos modos de viver. Não mais estamos limitados às nossas velhas ideias."Texto Básico, p. 64

Quando éramos crianças, podem ter-nos ensinado, ou não, o que é certo e errado, a par de outras coisas básicas da vida. Seja como for, quando entrámos em recuperação, a maioria de nós tinha apenas uma ideia vaga de como viver.

(...) Talvez precisemos de aprender a ser generosos e a preocupar-nos com os outros.Talvez precisemos de aceitar responsabilidades pessoais. Ou se calhar precisamos de ultrapassar o medo e correr alguns riscos.Podemos estar certos de uma coisa: em cada dia, simplesmente por vivermos a vida, iremos aprender algo de novo. (...)

Só Por Hoje

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Homem e o nosso planeta necessitam de água para a sua sobrevivência. Durante séculos foi a Natureza que dominou o Homem. A partir da Revolução Industrial a produção humana aumenta o que faz com que o Homem comece cada vez mais a ter influência na natureza. Contudo é a partir do fim da 2ª Guerra Mundial com a melhoria das condições de vida, que a população mundial aumenta duma forma nunca vista ao mesmo tempo que a produção e o consumo. Isso faz com que comecem os problemas ambientais provocados pelo Homem.
Se olharmos para os desastres ecológicos relacionados com a água nos últimos anos: o Tsunami de 2004; as inundações na África e na Europa; as grandes secas em África e mesmo em Portugal e Espanha, constatamos com facilidade que algo de grave se passa. O problema é que a responsabilidade é principalmente do Homem. (A Água, uma responsabilidade partilhada, 2006: prefácio).
Assim, 30 % da população dos países em vias de desenvolvimento não têm água potável (Giddens, 2008: p.617). Se pensarmos no facto do maior crescimento demográfico se verificar nas zonas onde isso acontece, constatamos a gravidade de uma parte muito significativa da população não ter acesso a água potável, e esse número, se nada se fizer, pode aumentar. Com a escassez da água surge um novo problema: vários rios são partilhados por dois países o que pode levar a problemas como cortes ou retenção da água se não houver boa vontade, diálogo e aplicação de medidas conjuntas. A construção de barragens terá que ter isso em conta, por exemplo.
O Homem descarrega há muito tempo lixo industrial nos rios sem ter consciência disso. A consciência ambiental só se começou a adquirir há poucas décadas. Surge então o aumento da poluição dos rios e das águas. Em muitas partes do Mundo morre-se de doenças provocadas por uma água poluída e isso poderia ser evitado se existisse um tratamento apropriado dessas águas. Por outro lado o aumento da temperatura global faz com que a costa diminua e isso pode levar à salinização da Água potável alem dos outros problemas inerentes à diminuição da costa terrestre. Temos assim uma água já raramente existente e além disso poluída.
A consciência criada nas últimas décadas levou a que o processo na Europa se tenha estabilizado. A partir do relatório “O Nosso Futuro Comum” da CMAD, 1987 (citado por CAEIRO, Sandra; CARVALHO, Teresa Nobre, 2001, pág.106) começou-se a ouvir falar em desenvolvimento sustentável, crescer satisfazendo as necessidades do presente sem comprometer as necessidades do futuro. Contudo se isto é uma realidade na Europa, não o é nos países em vias de desenvolvimento onde parte desse desenvolvimento é responsável pela degradação do ambiente e da Água e os custos das mudanças de políticas terão de ser também suportados pelos países mais ricos, se assim não for feito nunca se poderá travar essa degradação. Vivemos numa era global em que estamos cada vez mais interligados e é necessário olhar para o problema duma forma conjunta. Ora isso é difícil com as dificuldades impostas ou mesmo pela recusa dos maiores produtores, com os EUA à cabeça, em assinar os acordos.
Em 2000 surge da Cimeira do Milénio das Nações Unidas, assinado pelos 189 membros, os “Objectivos de Desenvolvimento do Milénio” em que se toma um compromisso a atingir em 15 anos. No ponto 7, podemos ler que “(…) Reduzir para metade a percentagem da população sem acesso permanente à agua potável(…)” , Apesar das intenções a implementação de medidas concretas e o seu resultado tarda. O futuro não se prevê melhor. Com o aumento da temperatura provocada pelo efeito de estufa (demonstrando assim que todos os problemas da natureza: água, terra, ar, estão interligados), começa a surgir a fusão das calotes polares. Espécies como a Tartaruga, o Pinguim ou o Urso Polar, estão em perigo de extinção devido aos problemas relacionados com as alterações da água. Os ecossistemas estão ameaçados e a biodiversidade reduzida.
No relatório da Implementação da Directiva Quadro da Água¹ (directiva que saiu do Parlamento Europeu e do Conselho em 23 Outubro 2000), Portugal aparece bem cotado nas medidas de implementação. Também no V Fórum Mundial da Água² realizado em Istambul em Março de 2009, foi destacado em Portugal o modelo institucional de gestão do sector da água, e fez-se referência ao IRAR, instituto regulador de águas e resíduos assim como a mais 4 outros projectos. Conclui-se que apesar de alguns passos positivos muito ainda há a fazer. Juliet Christian-Smith afirma (entrevista a CAETANO Emília 2008, p:22), que, mesmo com os avanços do I.N.A., no que respeita à gestão e no que toca à participação pública, pouco ou nada se evoluiu e a política fechada deste Instituto não tem ajudado a que a participação pública possa existir.
A falta de Água e as suas implicações, assim como as suas causas, surgem como um dos maiores problemas contemporâneos que englobado nos restantes problemas ambientais, constitui provavelmente o maior desafio do Século. É necessário que as pessoas se consciencializem cada vez em maior número deste flagelo ambiental. Apesar da importância das leis e do controle das situações, aquilo que realmente poderá fazer com que as coisas se modifiquem duma forma definitiva será uma nova consciência ganha através da prevenção, educação e participação.
Bibliografia:
CAEIRO, Sandra; CARVALHO, Teresa Nobre de (2001) Grandes Problemas ambientais, in CARMO, Hermano (coord.) Problemas Sociais Contemporâneos. Lisboa: Universidade Aberta, pp.79-116.
GIDDENS, (2008), Sociologia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
COMISSÃO INDEPENDENTE PARA A QUALIDADE DE VIDA (1998) Cuidar o futuro. Um programa radical para viver melhor. Lisboa: Trinova Editora
A ÁGUA, UMA RESPONSABILIDADE PARTILHADA (2007) Unesco,
CAETANO, Emília (2008) Entrevista Visão de Juliet Christian-Smith, 27 Novembro, p.22 Visão
OBJECTIVOS DO MILÉNIO (2000) Cimeira do milénio
WILKIPÉDIA http://pt.wikipedia.org. (2009) Consultas de 28 e 29 Março
¹ http://dqa.ing.pt/
²http://www.adp.pt/content/index.php?action=detailfo&rec=2399&t=Exemplos-portugueses-em-destaque-no-Forum-Mundial-da-Agua

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

As ferramentas 1. :

Preâmbulo de A.A.

"Alcoólicos Anónimos é uma comunidade de homens e mulheres que partilham entre si a sua experiência, força e esperança para resolverem o seu problema comum e ajudarem outros a se recuperarem do alcoolismo.
O único requisito para ser membro é o desejo de parar de beber. Para ser membro de AA năo é necessário pagar taxas de admissăo nem quotas. Somos auto-suficientes pelas nossas próprias contribuições.
AA năo está ligado a nenhuma seita, religiăo, instituiçăo política ou organizaçăo; năo se envolve em qualquer controvérsia, năo subscreve nem combate quaisquer causas.
O nosso propósito primordial é mantermo-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançar a sobriedade." ( http://www.aaportugal.org/ ).

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Raramente falo do meu trabalho e quando falo parece que tenho alguma necessidade de ir puxar a parte menos atractiva e que faz com que depressa as pessoas queiram mudar de assunto. Esqueço-me que o meu trabalho é um trabalho maravilhoso. É fácil esquecermo-nos, perante tanto sofrimento, que o trabalho numa enfermaria, quer de médicos, enfermeiros, auxiliares é um trabalho maravilhoso.
Nós, somos seres muito bons. Temos imensas discussões, tiramos imensos inventários uns dos outros, ás vezes respondemos por vezes rispidamente a doentes ou visitas, mas somos seres excelentes. Somos nós que os medicamos, que lhe damos a comida, que os lavamos, que os auxiliamos nos primeiros novos passos, que lhes tocamos, que os viramos, que corremos quando gritam, que nos despedimos deles.
Se difícil é imaginar toda a beleza deste trabalho difícil será imaginar a beleza do trabalho do enfermeiro em relação ao médico e ainda mais difícil é imaginar a beleza do trabalho do auxiliar...
Se juntarmos a tudo isto um hospital de retaguarda e uma enfermaria de medicina, a maior parte vai deixar de ler por aqui!
Eu gosto muito do meu trabalho, embora passados 16 anos de lidar com doentes ainda estou a tentar descobrir a melhor maneira de andar por cá. Mas isto também por outras razões que ficam para outra altura.
Lidar com a doença e no meu caso especifico com a morte, é algo indescritível a nível de sentimentos. Por muito que tente não dá para descrever.
Nos últimos anos, e disso é que queria falar, realmente envelhecemos. Trabalhei numa medicina há 15 anos e nada tem a ver com o que é esta. As pessoas envelheceram, estão muito mais dependentes e apodrecem durante anos chamando nós vida a uma coisa que é apenas sofrimento. O panorama alterou-se imenso ainda na nossa vida.
Em muitos casos a esperança de vida, felizmente, é acompanhada por alguma qualidade o que são as boas, excelentes noticias. Mas ao que eu assisto diariamente, não é isso. É à perca de dignidade, de se tornar um estorvo para a família e a sociedade, para um sofrimento por vezes indescritível provocado por anos de estar acamado e muitas vezes inconsciente ou noutro mundo.
Nós lá estamos, muitas vezes com as únicas pessoas que lhe ficam e que vão lhes dar assistência. Assistência sempre algo relativa porque nem anjos como nós com trinta e tal doentes e mais alguns em maca conseguimos dar a assistência devida. Mas estamos lá e cumprimos.
Se alguém for contra a eutanásia em casos concretos, gostava que fosse passar uma semana comigo aquela enfermaria. Por vezes pedimos a Deus que leve aquela pessoa com todo aquele sofrimento. Hoje em dia há sempre mais um remédio ou uma máquina para prolongar a vida por 1 dia, 1 mês ou 1 anos. Muitas vezes perante muito, mesmo muito sofrimento.
Quando abatemos animais que estão a sofrer, dizemos que é por compaixão. Quando prolongamos a vida a pessoas em grande sofrimento, o que estamos a fazer?
Claro que todo o trabalho começa por nos darem melhores condições para tratarmos as pessoas, por mais pessoal a trabalhar e por um mudança de mentalidade. Urge voltar ao tempo em que o idoso era o velho sábio. Com o avanço da esperança de vida, com a tecnologia e com o ritmo da vida moderna ( e porque chamamos vida a estados completamente vegetativos ) o idoso passou a ser um fardo e que fardo. Ao passar-se mais tempo a tratar do idoso do que dos filhos, o panorama tornou-se assustador e perde-se a condição humana quando se torna um estorvo.
Se esse estorvo adoece, ainda é pior. As pessoas ficam desesperadas e quem as pode culpar, se elas também não tem condições para nada?
Ás vezes saio do trabalho e respiro fundo, muito fundo. Parece que passo uns momentos em que não estou cá. Felizmente tenho um porto seguro para onde voltar, para a minha mulher, para a minha vida, os meus amigos e consigo assim ver a parte boa de tudo isto, mas eu sou um previligiado!
O próximo debate será certamente esse. Mereço morrer com dignidade. Como se poderá fazer isso? Até lá vou estando por lá eu e muitos outros, agora até vamos abrir um novo hospital! A fazermos o que pudermos.
Nunca gostei de conflitos. Se calhar ninguém gosta de conflitos neste mundo cheio deles e de pessoas que se alimentam deles.
Recordo-me sempre com 9 anos em frente à praia do Bispo em Angola, no meu quarto à janela fazendo promessas que me portava bem se as minhas irmãs, na altura adolescentes, chegassem a horas e assim se evitasse o conflito com os meus pais. Lembro-me do rádio que tínhamos e que um dos meus pais, já não me lembro qual, o espatifar no chão numa discussão com elas, daqueles bonitos rádios antigos. Bonitos e bons porque durante muito tempo, até virmos para Lisboa, ele continuou a funcionar. Lembro-me do silêncio tão desagradável da manhã seguinte.
Paradoxalmente a minha vida sempre foi um conflito interior. A minha falhada táctica de sobre vivência que durou durante décadas foi de me anular, de me calar, de tentar passar despercebido.
Fugir não resolve o problema antes perpétua e aumenta o medo e o ressentimento. Por vezes ao fim de um certo tempo explodia em noites que não me apetece agora recordar de álcool e asneiras para recomeçar na manhã seguinte cheio de vergonha e com mais medo. Dia após dia, ano após ano.
Na verdade, como diz John Powel, como te posso mostrar quem sou se é a única coisa que tenho, se tu não gostares com o que fico para te oferecer? Esse medo levou-me a nem sequer eu conhecer o Pedro!
É muito bom que que agora as coisas vão sendo diferentes. Muita coisa persiste ( por isso digo vão sendo diferentes e não: estão totalmente diferentes) , mas é bom o que vai acontecendo. Por exemplo, nos últimos tempos tenho dado a minha opinião , por vezes duma forma mais brusca; tenho-me mostrado, pelo menos, muito mais verdadeiro. E isso não me trás logo conforto. Por vezes expludo, outras consigo dizer as coisas assertivamente, mas o conflito é realmente uma coisa de que não gosto. Chateia-me, traz-me medo, montes de sentimentos desagradáveis. Eu sei que dar a opinião não é sinónimo de conflito, ok, mas ainda me sinto logo julgado, como se de uma acusação silenciosa se tratasse o teu silêncio.

Isso é outra coisa de que não gosto, da acusação silenciosa que nem sequer sei se é só da minha cabeça ou é verdade porque ... é silenciosa!
É muito giro e tão gratificante estar a aprender agora a sentir o silêncio de outra forma, como um lugar onde posso parar a minha mente e ficar calmamente comigo, em paz! Até há pouco tempo significava exactamente o contrário, um espaço de ressentimentos e de inquietude. Mesmo quando dei os primeiros passos ténues de uma nova maneira de estar, assustava-me estar em sossego comigo. Lembro-me de durante anos me refugiar no meu quarto e num mundo fantasiado onde eu normalmente passava para o papel principal e o quanto isso me aliviava. Depois o encontro com a vida, quando saia do quarto era algo perfeitamente insuportável e a de que rapidamente fugia para o álcool ou outra coisa qualquer que não me fizesse sentir.
Por isso, descobrir agora sóbrio, a meditação, a musica e o silêncio duma forma tão diferente é algo fascinante que me vai fazendo ultrapassar o medo de que não gostes de mim. Apesar de tudo ainda cá estás mesmo com a minha opinião contrária e mesmo com as nossas discussões!

Que cada vez mais consigamos viver em Paz e Amor eliminando ( ou pelo menos ultrapassando ) a necessidade de termos conflitos.

Om Shanti

sábado, 9 de janeiro de 2010

De repente as coisas mudaram. Onde eu só sentia segurança e força vieram ventos de conflito e o chão tremeu. Os alicerces em que tudo estava cimentado pareciam querer ceder ou no minimo pareciam que estavam à força a substitui-los.
É complicado. Tudo aquilo que representava o meu acordar, o meu renascer estava agora de pernas para o ar.
Felizmente a decisão estava tomada e o meu chão tinha sido bem cimentado, aquele meu cantinho apecebi-me que aguentava bem os ventos contrários. Ou se não bem, pelo menos ia aguentar até porque a esperança é de sair renovado.
Tive medo ( ainda tenho, por breves momentos, ás vezes ). Decidi não me calar, não sei se isso me vai fazer muitos amigos, mas pelo menos o medo de não os fazer deixou de pesar tanto. Dizer as coisas com assertividade, sem botar julgamentos cá para fora é o cabo dos trabalhos! Umas vezes fi-lo, outras não, a verdade é essa.
Continuando a ver as coisas positivas - não sei se repararam mas hoje estou a tentar não ser pessimista, aliás descobri que sou um optimistas aos 46 anos, bem bom! - fez-me enfrentar o medo, a opiniao dos outros, fez-me querer enriquecer com novos mundos de crescimento que iam sendo adiados, fez-me viver e crescer!
Por isso, está tudo: O.K.!